De onde é quase o horizonte

De onde é quase o horizonte 
Sobe uma névoa ligeira 
E afaga o pequeno monte 
Que pára na dianteira. 

E com braços de farrapo 
Quase invisíveis e frios 
Faz cair seu ser de trapo 
Sobre os contornos macios. 

Um pouco de alto medito 
A névoa só com a ver. 
A vida? Não acredito. 
A crença? Não sei viver.

Fernando Pessoa

Exílio


Quando a pátria que temos não a temos 
Perdida por silêncio e por renúncia 
Até a voz do mar se torna exílio 
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen

Entre dedos

Blocos

É isto vivemos dentro 
de grandes blocos de gelo
 
sem aquecermos ao menos
 
com os dedos outros dedos
 
No fundo de nós temendo
 
que um dia se quebre o gelo

David Mourão Ferreira

Ainda o navio de proa erguida

ARIANE

Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.


Miguel Torga

Proa (2)

em mudança


Pouco a pouco, os bairros típicos da cidade vão perdendo população humana e são os pombos os novos setubalenses.

Casinha

Com a crise financeira internacional, o sub-prime, as bolsas, o mal parado e o bem amanhado, a esta vespa só resta a auto-construção. Quem sabe se é um caminho a seguir.